Para viver um grande amor: sobre Suzana e Adriana

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

– Vinícius de Moraes

 

Hoje de manhã a Luisa me mandou um link que contava da morte da atriz Suzana de Moraes, esposa da cantora Adriana Calcanhotto. Sempre fui muito fã da Adriana e da sua capacidade de montar com agudos músicas e poemas lindíssimos, que invadem a nossa alma e nos fazem pensar na vida. Quem não se lembra da lindíssima “Devolva-me”, gravada por ela, que emocionou o país inteiro por ser carregada de um amor profundo, aquele amor que mora em sua voz.

adriana-calcanhotto-suzana-de-moraes-2

E Adriana não poderia ter ao seu lado alguém que não fosse poeta, que não entendesse a essência da sua alma. E assim era Suzana. Filha de Vinícius de Moraes, levando a poesia do seu pai no sangue, viveu uma vida linda ao lado de uma das vozes mais famosas do nosso país. Pensar na morte da Suzana de Moraes é pensar na namorada e na viúva, no grande amor, na perfeita vida dos grandes amores que nos fazem acreditar em nossos amados.

vinicius-suzana-de-moraes

Adriana e Suzana estavam juntas há 26 anos e apesar de toda a diferença de idade, do preconceito sofrido pela orientação sexual, pela vida reclusa muitas vezes contra a vontade, elas viveram um grande amor. E não um desses amores de cinema, da Disney. Não, um amor real e verdadeiro, daqueles que sofrem com defeitos e como já dizia Adriana “eu gosto dos que têm fome, dos que morrem de vontade, dos que secam de desejo, dos que ardem”.

Vinícius sentiria orgulho de sua filha mais velha, que esteve ao lado do seu grande amor, apesar de tudo o que eu disse aí em cima. Com força, tendo muito peito, como ele mesmo disse em seu célebre texto “Para se viver um grande amor”. Com garra, com peito, decididas a não deixar para trás o amor para se proteger do preconceito. Enfrentar de frente, é essa a lição que esse casal deixa para nós: enfrentar o mundo, as dificuldades, ter fé para seguir em frente ao lado de quem te faz sorrir de manhã, ao lado de quem segura a sua mão em um momento de tristeza.

 

E não importa o sexo, não importa a idade, o que importa é ter no peito aquele conforto de estar ao lado de quem se ama. Quando soube da notícia da morte de Suzana, lembrei dos meus pais, que me ensinaram a tolerar, a entender a vida e as decisões de cada um, compreendendo que acima de tudo está o amor. Foram eles que me ensinaram a admirar o amor acima dos julgamentos que a sociedade insiste em nos impor. Foram eles que me disseram que eu deveria prestar atenção à felicidade dos outros e não ao que me incomodava. A vida e o amor pertencem a quem vive e ama e meu maior desejo é ser assim e é por isso que lutamos.

adriana-calcanhotto-suzana-de-moraes

À Adriana desejamos conforto e força para enfrentar esse momento de perda. Só nos resta agradecer por ser mais uma peça nesse mundo onde nem todos podem amar livremente, por ser mais um bom sujeito que tem peito de remador para enfrentar a correnteza de preconceito que um dia, assim torcemos, vai acalmar. E todos vão entender que não há lugar para o preconceito, para julgamentos infundados, só haverá lugar para amores lindos, imperfeitos, insistentes e infinitos enquanto durem.

 

Mais sobre grandes amores:

10 coisas que aprendemos em um relacionamento de verdade

Como um ano novo horrível fez eu amar ainda mais meu (futuro) marido

O dia em que a ficha “estou casada” caiu